De acordo com Carlos Cabral, “ser enochato é careta”
Ingrid Calderoni - 08/08/2007 17:43
Entre uma garrafa e outra, o interesse pelo mundo dos vinhos pode render um aprofundamento; daí tem-se o enólogo, que estuda e entende do assunto; o enófilo, apreciador de vinhos com conhecimento de causa; e o sommelier, profissional que sugere rótulos em restaurantes.
O aumento do interesse do brasileiro por vinhos também originou a infeliz praga dos “enochatos” - sujeitos que fizeram um curso básico sobre vinhos e aproveitam qualquer chance para girar a taça sem parar, fungar com estrépito e enumerar esdruxulamente todos os aromas de “grama cortada” e “cassis pisado” encontrados no vinho.
“Esse tipo de comportamento é o que mais espalha a fama pedante da cultura do vinho”, diz o enófilo e consultor do grupo Pão de Açúcar, Carlos Cabral, autor do recém-lançado livro Presença do Vinho no Brasil. Ao perder tempo com nomes de aromas e gostos, o iniciante deixa de lado conhecimentos mais relevantes, como as diferenças entre as uvas viníferas, as principais regiões produtoras, de que forma clima e solo interferem no resultado final, como deve ser lido o rótulo e quais as melhores combinações da bebida com a comida.
Se você gosta de vinhos mas não quer se transformar num “enochato”, confira as dicas que o enófilo deu em entrevista exclusiva ao SeuRestaurante.
SR: O que é a coisa mais importante que um leigo deve saber?
Carlos Cabral: O mais importante é saber o que gosta. Primeiro deve procurar o sabor, que é fundamental. Depois a cor [branco ou tinto]. Aquele que já provou alguma coisa, alguma vez, pode pedir por uvas. Tem vinhos de diversas variedades com preços variados. Só no Brasil há mais de 20 mil rótulos para escolher.
SR: O ideal então é começar pelo mais simples?
Carlos Cabral: Sim, não se pode começar começar pelo mais caro. O vinho é um aprendizado. Se você tem amigos gourmet ou pais cozinheiros, tudo bem, você aprende mais rápido. Mas não comece com vinhos acima de R$30. Vá vasculhando tudo que existe nesta área [America Latina] até encontrar um vinho que goste.
SR: A complexidade do vinho tem a ver com preço?
Carlos Cabral: Totalmente. Se você faz um blend com várias uvas de safras diferentes, coloca para envelhecer num barril de carvalho que custa 750 dólares e deixa uns três anos lá, a garrafa não sai por menos que R$45.
SR: As taças são importantes na hora da degustação?
Carlos Cabral: Sim, mas não podem ser limitadores. Se você bebe um vinho num copo inadequado, você não usufrui de todas as características deste vinho. Agora, para apreciar vinho, tem que prestar atenção ao que está bebendo, não é para beber que nem coca-cola.
SR: Você acha que a linguagem do vinho assusta um pouco as pessoas leigas?
Carlos Cabral: Assusta muito. As pessoas vêem isso como uma limitação. Quem entende mesmo de vinho deve facilitar isso, e é uma coisa que eu sempre discuto no meio dos enófilos.
SR: Nesse caso as revistas especializadas são uma boa alternativa?
Carlos Cabral: São magníficas. É um assunto que insere no contexto. É uma coisa a ser interpretada, e não seguida. A cultura do vinho é um complexo. As regras existem, mas também não precisam ser seguidas ao pé da letra, tem que ter bom senso. O mais importante é se aculturar no mundo do vinho, ler bastante, ler os rótulos, ir atrás de sites.
SR: Que sites que você indica aos internautas?
Carlos Cabral: Os melhores sites são da ABS, SBAV, Vinho e Cia, e Academia do Vinho.
SR: Qual a sua opinião em relação às notas que os especialistas dão aos vinhos?Você acha que o leigo pode ser basear por elas para comprar um vinho?
Carlos Cabral: Sobre notas eu sou contra até de baixo d'água. Nota é uma coisa pessoal, não é unânime. O que envolve julgamento pessoal, posso até ler e pensar sobre isso, mas se guiar pela opinião dos outros é o fim. Sou convidado a participar de degustações de revistas e outros, e sempre furto de todos. Não quero que alguém deixe de tomar um vinho por causa da minha opinião. Não é querer ser radical, é que o paladar das pessoas não é o mesmo. Digo que a qualidade de 90% de um vinho depende do seu estado de espírito no momento. É muito relativo.
SR: O que você acha das confrarias? É uma boa alternativa para quem está começando?
Carlos Cabral: Eu acho maravilhoso, as pessoas se juntam e um aprende com o outro.
SR: E sobre enogastronomia, a combinação entre comida e vinhos?
Carlos Cabral: É uma delícia. Imagina, você trabalha o dia inteiro que nem um desgraçado e depois se dá o direito de comer e beber bem. Mas também deve ser tratada com a maior simplicidade.
SR: Mas dá para ter uma experiência gastronômica com a simplicidade do dia-a-dia?
Carlos Cabral: Claro! [risos] Dá para comer arroz, feijão, bife e salada, e beber um vinho que combine, fica perfeito.
SR: Como harmonizar pratos com vinhos?
Carlos Cabral: Só fazendo experiências. Cada casa tem seu tempero, sua tradição, e você deve procurar harmonizar [os vinhos] com essa rotina. Para qualquer prato, há um vinho para acompanhar, até feijoada tem seu vinho. A regra de leve com leve e pesado com pesado é óbvia e deve ser exercida.
SR: E sobre seu livro e seus futuros projetos?
Carlos Cabral: Sempre estudei vinho. Fundei a primeira confraria SBAV em 1980. Estudo vinhos desde os 19 [anos]. Há 10 anos sou consultor do Pão de Açúcar. O “Presença do Vinho” tem cunho altamente histórico e quero continuar a usar este recorte no meu próximo projeto. Atualmente, estou trabalhando freneticamente no meu próximo livro, fazendo pesquisas históricas sobre os vinhos e a política no Brasil. Daqui uns seis meses deve sair do forno.
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